quinta-feira, 3 de setembro de 2009

REQUIÉM PARA DOIS CANALHAS (ou BACK TO BLACK)


Sentado aqui nessa lápide que um dia chamamos de cama, ouvindo a marcha fúnébre que um dia chamamos de nossa canção, me pego olhando essas fotos espalhados pela parede , pelo chão, pela retina. Na boca, não mais o gosto do vinho na tua língua ávida de meus fluidos, de todos os meus selênios e leites, só o gosto do pró-seco do vácuo me travando a garganta, da solidão violenta e cega,testemunha ocular desse nosso amor, agora, pontual, dolente, tão confortável e doméstico.

Depois de tomada a enésima dose de perdão, a enésima promessa de mudança, back to black baby! Constato sobriamente que estamos à deriva no oceano de secura que virou nossa história. Já não creio que deus, nem a poesia, nem o vinho e o antídoto que moram nas letras, vão nos curar, nos resgatar. Nem os semi-deuses da música com todos os seus pecados e santidades, vão nos dar a volúpia da paixão, com toda sua fúria e violência doce de volta.Nem Beth Gibbons e sua música triste e quente nos devolverá o transe da química das bocas transbordando de sede um do outro, derramados no quarto à meia luz,escondidos no fumê do carro nas madrugadas.Nem Jeff Buckley, com seu lilac wine nos embriagará e salvará nossas almas. Nas taças que antes quebrávamos rolando pelo chão de qualquer espaço que nos abrigasse, quando as palavras viravam mero acessório dispensável, agora só bebemos a cicuta da solidão a dois. A junkie depressiva e talentosa já havia profetizado, enquanto nós trepávamos: love is a losing game.

E eu me pego perguntando:

Que horas o nosso relógio parou de bater?

Quando foi que nosso amor foi assaltado? Em que vala jogaram sua identidade?

Quem de nós enfiou o punhal? Quando o fizemos, agimos com dignidade? (e há dignidade em matar o amor?) ou fomos covardes e o atacamos enquanto ele dormia, enquanto estava de costas?

Quando é que nosso amor foi atropelado naquela estrada escura? Qual de nós acelerou? Por que não prestamos socorro quando ele agonizava no chão? Ele não teria sido salvo se tivéssemos prestado os primeiros socorros à tempo, se tivéssemos feito respiração boca a boca, se tivéssemos feito pressão em seu peito? Fomos omissos?

Quando lançamos a seta negra e letal que atravessou e vazou o nosso cúpido? Quem de nós atirou a primeira pedra quando o colocamos na parede e o apedrejamos?

Quem de nós o envenenou em doses homeopáticas com silêncio, ciúme e jogos?

Por que nada fizemos quando jogávamos a poeira debaixo do tapete, até se transformar nesse Saara que é o nosso quarto?

E depois que o nosso amor morrer,quando formos para o funeral, quem de nós chorará primeiro? Seremos viúvos inconsoláveis ou seremos viúvos alegres? Vestiremos um luto profundo pelo resto de nossas vidas, sentindo uma incurável dor da perda que doerá mais em certas ocasiões ou respiraremos aliviados pela partida do parente que agonizava no hospital?

O que escreveremos em sua lápide branca? Que epitáfio em vermelho vivo?

Um poema ou uma oração ao amor morto? o que cantaremos? Uma missa santa ou um requíem para dois canalhas, dois covardes?

E depois? Como olharemos suas fotos? Como veremos suas roupas no guarda roupa, sua gavetas?

O que sentiremos quando sentirmos seu cheiro impregnado nelas?

O que sentiremos quando lermos as cartas que fizemos por ele? E o que sentiremos quando vermos os inúmeros presentes empilhados,espalhados pelos cômodos da casa, cada um deles contando pedaços da história vivida, entre lágrimas, abraços, beijos, suores, respirações entrecortadas, promessas de eternidade perdido na órbita dos olhos um do outro, doces mentiras e risos, muitos risos.Onde os enterramos? Onde escondemos os nossos incontroláveis, incabíveis, inevitáveis e cúmplices risos? Lembra de quando ridicularizávamos dos outros com eles? Quando desmedidamente desdenhávamos dos que diziam que não,dos que diziam que nosso amor era impossível, que era um erro fatal, uma fantasia de dois egoístas, traiçoeiros, irresponsáveis, inconsequentes e frios? o que aconteceu com eles?

O que farão nossos olhos? secarão de dor latente ou brilharão com a esperança da perspectiva de um novo começo?

O que faremos com o que sobrar dele? Queimaremos para que não haja nenhuma lembrança que dificulte a cicatrização da gangrena ou altruísticamente distribuiremos seus pertences entre os necessitados?

O que sentiremos quando olharmos um vagabundo bêbado esmolando pelas ruas com a roupa que foi dele?

Eu hoje vou dormir no quarto em que nosso amor se deitava, vou me vestir com a roupa que ele dormia, vou usar sua aliança, abraçado ao travesseiro que ele pousava a cabeça e em uma noite chorava e em outras sonhava com uma mão agarrada em minha mão e outra na sua.

Amanhã decido se incendeio essa casa ou se dou uma festa. Pense também. E depois me mande sua decisão por sinal de fumaça, uma carta bomba, um e-mail.


Eu vou rezar para que uma maldita esperança não insistir em nascer em mim e não sonhar que você só está me matando em você por me amar demais.


Farewell.



São Luís, 01 de agosto, desse ano que se arrasta.

Aqui nesse hotel vagabundo.

terça-feira, 2 de junho de 2009

A EXUBERANTE E PERIGOSA NUDEZ DA ALMA (ou UM POEMA PARA SER APEDREJADO)






















Ela lhe dizia "eu te amo" como quem paga uma dívida,um aluguel adiantado, como quem tinha saído de um emprego vagabundo e subitamente fora chamada para um outro à sua altura, na Europa, ganhando em euros, mas como já tinha pago adiantado o aluguel daquele mês, deveria, resignadamente, continuar se hospedando ali, até que sua pele, que ela, no fundo, pensava que nascera para palácios, pudesse finalmente ser acariciada pelos tecidos que ela amava ter o contato.


Ás vezes, ela também falava “eu te amo”,como quem queria desesperadamente crer naquilo, mas, por dentro, maquiara a certeza que não tinha, com uma fantasia romântica que ela ouvira numa daquelas
músicas vulgares que ela ouvia quando a inteligência ainda estava soterrada pelos hormônios em sua meninice.Ela se imaginava a protagonista de um desses filmes piegas, onde ela, a princesa rica, encontrava um plebeu herói e com ele enfrentava soldados, dragões, mães e feitiços.Com ele moraria num modesto apartamento na zona norte onde o amor enobreceria e enriqueceria aquela lugar e eles seriam felizes para sempre. Era assustador, talvez confessar, que talvez preferiria, as elegantes casas européias, ou o american way of life, confessar que talvez preferiria o cheiro do asfalto, do dinheiro e de perfumes caros. Talvez já achasse o príncipe meio caído,velho e aquela barriga já não lhe parecia assim tão bonita. Talvez, de fato, preferisse a juventude opulenta e saudável como ela, as luzes, as aventuras feitas em carros, embriagada de vinhos e pós, e outros venenos deslumbrantes.


Talvez nunca fosse a santa que queria ser, ou que dizia ser. Talvez já tivesse dado dez vezes mais do que disse que já havia.Talvez, nem sempre por amor, como dissera sempre. Talvez fizera por sexo mesmo: sexo no sexo, pau na boca, na mão, por sacanagem mesmo, porque era bom, e, para desespero de sua patética culpa católica, ela havia gostado. Não,ela havia
adorado trepar daquele jeito!Na primeira noite, sem firulas, sem pose e teatro de boa menina. E ainda pôde pôr a culpa no álcool.Era uma boa moça, semi-pura,semi-sem-vergonha,semi-algo,inteiramente gente.Groupie casta de músicos, de poetas, de artistas anônimos, de homens de fardas, de suas fantasias, ela só estava à procura de si, ela só estava se experimentando, se perdendo, se achando, construindo o edifício de si mesma.Talvez fosse essa sua maior santidade.Se ao invés da carne tenra cobrindo o ventre, tivesse um pênis, ergueriam estátuas pra ela e teria reputação respeitosa entre eles. Não entendia aquela hipocrisia,aquilo não era inteligível mesmo.Era poeira medieval ainda debaixo do tapete da sala da família.


Talvez ao ficar calada, adoraria mandar que todos tomassem em suas respeitabilíssimas bundas, onde ela, by the way, já havia tomado diversas vezes e havia
A-D-O-R-A-D-O, embora dissesse pra ele que ele fora o primeiro lá, ou qualquer uma dessas balelas que as meninas falam quando tentam fingir para seus parceiros inseguros, os defloradores de porra nenhuma, os primeiros lugares da corrida que já acabou há anos, os vencedores de merda.Não lhes bastava correr entre as pernas delas, deslizar, cair de boca, se ralarem, escorregarem em seus quadris e extenuar seus músculos em explosões e depois desmaiarem de cansaço em suas pistas. Seus egos inflamados precisam de uma medalha de primeiro lugar. Eles não entendiam que o grande lance era perder pra elas. Em contrapartida,Ela se assustava perguntando-se, principalmente, a quem mentia mais: a eles ou a si mesma.Se no fundo, o que gostava de fazer mesmo era simplesmente dar sua gloriosa carne do ventre, grande e branca como o sushi que adorava, sem culpa nenhuma. Talvez quisesse sentir o gosto de si mesma em outra, sentir a textura mais branda, delicada, o toque mais suave de uma língua hospedando-se mais doce em sua boca ávida de tudo.Talvez quisesse experimentar dois, três corpos de uma vez, pra satisfazer a sua curiosidade,a sua fome do desconhecido. Talvez até gostasse de paus 2, talvez até 3 vezes maiores do que o que ela tinha com mais freqüência e chamava de: “o pênis do meu amor”, e, apesar dela dizer para ele e para as amigas que o que importava mesmo era o tamanho da mágica, não da varinha, talvez, por dentro dissesse para si, que não faria mal nenhum se a mágica viesse de uma vareta tamanho G. Talvez não, talvez a lâmpada maravilhosa estivesse toda na entrada da casa, e ela só precisava encontrar alguém que a acariciasse,toca-se, lambesse,esfregasse a lâmpada,ou que quando quisesse derrubar suas barreiras que dissesse palavras mágicas em seu ouvido pra que as portas se escancarassem pra ele. Queria talvez, que ele a explorasse como quem acorda dentro de um sonho, em um campo de morangos silvestres, de tâmaras e trufas que desmanchassem ao contato de sua boca,que a tocasse e tratasse dela com a mesma paixão que cuidava daquele maldito carro novo. Que com alguma freqüência a comesse direito, sem pressa, que a saboreasse e que de vez em quando, a devorasse com voracidade.Era pedir demais?


Ela era assim, confusa. Pensou que talvez fosse medíocre, hipócrita e que, o que para alguns soasse como virtude, ela sabia que não passava de mera covardia de fazer, de oportunidade, de condições ideais para fazê-lo. Talvez ela se odiasse pela mesma covardia, talvez se amasse justamente por isso, ela não sabia.Iria viver mais para descobrir-se, ou cobrir-se, já que a nudez, do corpo ou da alma, é sempre mais condenada, arriscada, aflitiva, incendiária, embora mais exuberante.




São Luís, 01 de junho de 2009
01:45am

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O BARDO E O KAMIKASE


Me diga: Tu estás mesmo surpreso que tenha sido assim?Tu não sabes que o amor é essa coisa de pontas que fere, arranha e rasga?Não me diga que mentiu pra mim e pra ti e no fundo acreditas naquelas novelas mexicanas,naquelas literaturas bobas, fúteis, onde o amor é tratado como uma flor etérea! O amor, meu caro, você bem o sabe, é lindo, mortal e assustador como uma lâmina cruzando os céus de Tarantino.É como uma fogueira ardente no meio da tempestade de gelo,um oásis inflamado em chamas.Seu calor vai sempre nos salvar as vidas frias,incendiar a geada nas veias.Caminharemos para ele feito loucos para o conforto das labaredas,mas uma hora ou outra, um dos dois, ou dos três, vai perder a medida como os insetos em volta da lâmpada,até morrermos ao contato de sua luz cortante,e,explodirmos divinamente belos,como estrelas em colisão com um sol,numa morte perfeita.

Ah,faça-me o favor,não me venha com esse lenga-lenga de tua auto-comiseração.Eu e você sabemos que você fez porque quis,porque não consegue viver sem emoção,sem o perigo lhe riscando a faca na garganta.Seu vício sempre foi o mesmo que o meu:a intensidade.

Para onde você está indo? Não vá por aí!Você não sabe que esse caminho é o correto? Por acaso você não se conhece? Você não sabe que logo se entedia com o “certo”?É pro lado de lá que lateja, é para o lado de lá que é arriscado,é pra lá que a aventura te chama com todos os seus excitantes venenos,sabores, cheiros.É para o outro lado que os teus sentidos explodirão,que a taquicardia vai se apoderar do teu coração, que a adrenalina e a surpresa vão se hospedar na tua corrente sanguínea,te dilatar as pupilas.É do outro lado que está a boca mais rubra, que se rasgam sedas, incendeiam celeiros.Lá,há uma igreja hedonista de freiras obscenas,com promessas de paraísos artificiais,onde anjos de peles e cabelos multicores riem,dançam,bebem,e se banqueteiam sem culpa nenhuma,puros e livres como Lolitas,Dorian Grays e as musas das literaturas mais embriagantes.

Não olhe pra esse lado! Aí mora o conforto,a rotina e todos os seus quartos trancados e sem iluminação,tudo aquilo que em algum momento vai te sufocar.Não se iluda.É para o outro lado que há paredes vazadas e vestidas de colagens psicodélicas, quadros em preto e branco de semi-deuses da arte,anjos caídos exuberantes e plenos que cortejam o perigo o tempo todo.É pra lá que no final vai doer,vai sangrar, mas tu vais continuar vivo, e, em algum momento tu vais quebrar a cara.Nós dois sabemos que é assim que você gosta.Então, poupe-se e aos outros desse desgaste e vá logo para o outro lado,e, por favor,não leva ninguém contigo.Não envolvas ninguém em tuas experiências de construção pessoal,na fome antropológica das tuas descobertas.Ninguém precisa mais sofrer pra que você se descubra,é um preço muito caro,paga-o sozinho.

Como? Ela disse que correria o risco?Ela não sabe o que está dizendo... É que o amor torna as pessoas míopes,cegas,e às vezes as enfraquece.É uma carga pesada para ombros tão estreitos como os nossos.Talvez não estejamos preparados para o seu peso, muito menos ela, de pele fina e semi-imaculada,sem os cortes que tu já levou,sem as navalhadas que tu conheces e que te deram essa casca mais dura e resistente.E,olha que eu te conheço como poucos e sei o quanto, ainda assim, você às vezes sangra nas madrugadas.

Ela continuou dizendo isso?Você lhe disse que pode doer muito?Ela sabe que depois ela pode se dilacerar e definhar,mesmo ainda estando com o sonho entalado na garganta?

Você disse para ela que o amor é o paraíso que é sempre véspera do inferno infalível?Que ele é um abismo com asas, que debocha da entropia e da dor,mas é parente sanguíneo de ambas,mesmo com todo seu gosto e verniz de eternidade?Você certamente já viu aquelas construções antigas:igrejas, palácios, mosteiros.Já reparou que,mesmo estando quebrados, abalados pelo tempo,como eles são bonitos,sempre à beira de desmoronarem?Diz pra ela que o amor tem essa beleza trágica.

Me diga: quando ela te disse que era amor,é mesmo o amor por ti ou desamor por ela mesma?Certifique-se da diferença,e tenha certeza que,depois vão te acusar de mentir,de ser frio.Vão dizer que você é mal,dissimulado,calculista... esteja preparado.

Você sempre se pune.Não sei quem é mais incompetente:elas que mentem em dizer que não se importam de sofrer ou você, que morre de culpa depois...Olha pra ti agora, ouvindo essas canções que deixam gosto de sangue na boca,fazendo esses versos cheios de hemorragia.É uma caneta ou de um punhal que tu precisas pra abrir essas feridas?Prometa-me que logo que você terminar essa autofagia, vai sacar do coldre aqueles versos que costumava parir,com a beleza da nudez e o constrangimento que ela provoca aqui nesse Saara que tu vives, onde a aristocracia desfila medíocremente com seus casacos de pele debaixo desse sol infernal.E,não esqueça de colocá-los numa frágil redoma de vidro,encostados no muro,porque você sabe que eu acho que verso bom é verso que incita o apedrejamento e a comoção. Considere um atestado de sobrevivência do suicídio emocional que você se inflingiu, harakiri interior, meu caro.

-Eu prometo...

Diga pra ela que a história contada depois de tudo, no noticiário, vai ser assim:“O amor lhe convidou pra sair numa noite perfeita,lindo e perfumado,com seu sorriso de gigolô sedutor.Levou-a pra dançar e rir.Já na suíte,entre um trago e outro,lhe beijou semi-nú,semi-deus.Rasgou sua roupa com mãos e dentes,lhe tratou como uma vadia,romanticamente.Sussurrou-lhe frases doces e indecentes,a fez gozar a noite toda e colocou a moça pra dormir.Ao acordar... boa noite Cinderela! O amor lhe roubou tudo” .Se ainda assim ela insistir em seguir contigo, pelo menos não faça promessas que eu e você sabemos que tu não vais cumprir, mesmo sabendo que é isso que ela quer ouvir e, mais importante: tenha certeza que ela saiba que amar é estação de muita plenitude de tudo,de muitos excessos,de vertigens e coisas ao mesmo tempo.É dançar em chuvas de vinho e sangue,é andar em jardim de flores virginais e silvestres rosas carnívoras.Então, guarde um drink, uma polpa, um veneno, um antídoto, um buquê, uma dança, uma escada de incêndio, um colete à prova de balas, uma primavera e um punhal, para o amor de sua vida.E tenha certeza,se não fosse você a puxar o punhal, em algum momento,teria sido ela.É assim que funciona.Pergunte pra essas suas cicatrizes enormes espalhadas no corpo.

Pareço frio? Seco? Ela diria que sim.Você sabe que não.Foi você quem me levou pro hospital naquela vez que eu cortei os pulsos por aquele outro,foi você que pegou na minha mão quando eu tive que fazer aquela lavagem estomacal quando tomei aquelas pílulas.Você estava lá.

Já vou indo.Me procure quando parar de sentir pena de ti mesmo.





São Luís,10 de março de 2009
02:40am

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

MR.SEGURANÇA


Abre a porta desse apartamento, dessa casa onde hoje tua alma de menina assustada mora. Me deixa entrar. Quero te mostrar uma coisa que nunca te deixei ver.


Mr segurança hoje vai te surpreender.


Não se decepcione se hoje Mr. segurança desabar. O edifício está minado. Não chame a tv pra ver a implosão, não deixe que façam espetáculo do meu arranha céu caindo, não deixe que filmem a derrubada da minha estátua na praça. Seja elegante e finja surpresa.


Se Mr. segurança hoje tirar a máscara, sair do personagem e errar o texto, por favor se emocione. Não ria de minha interpretação, não deixe que me vaiem, que me ridicularizem. Baixe a cortina em respeito ao meu fracasso. Fique com o meu troféu de melhor ator.
The winner is a loser.


Mr Invencível está acuado no canto do ringue com os punhos quebrados. O touro indomável está no chão, nocauteado por uma indomesticável dor, por um completa falta de sangue nas veias, de uma ausência de sentido em tudo.



Se o Mr argumento hoje gastar o seu latim e não convencer com a voz embargada, seja caridosa e me faça acreditar que a retórica foi brilhante, que o discurso foi eloquente.Faça com que seus olhos brilhem como se eu ainda te causasse admiração, como se eu ainda te arrebata-se, te encanta-se com minha suposta inteligência, como se você ainda tivesse orgulho de mim. Junte as tuas asas esfaqueadas e vôe em direção ao meu pescoço em um abraço de arrebatação como se me amasse.Me roube o ar e me estrangule com doçura.Desmaie por mim.


Se a montanha vacilar e o pavão tirar as botas é porque hoje Narciso está com medo de espelhos. Cubra-os. Dorian Gray foi convidado pra uma festa, seu retrato foi roubado do porão. No centro da sala, foi exposto com holofotes, canhão de luz voltado pra ele, e faz a alegria dos salões.



Aproxime-se por favor, olhe de mais perto, não se engane com o que vê. Esses jardins esplêndidos, são de plástico, flores ornamentais. Mr segurança hoje está à flor da pele. Todos os girassóis, crisântemos e papoulas verdadeiros foram arrancados.


Mr blindagem hoje está baleado. Essa dor de não te ter me vaza, me transpassa. Me perfurou e se alojou em algum inatingível lugar.Só lembro de ouvir ao longe o estampido de tua voz, a disparada de teu passo às cegas. Nervo exposto, estou agonizando. A minha hemorragia tem a cor de teu batom. Estou desfalecendo. Vem e me estanca esse gosto de sangue e perda com teu toque de fada, teu dom de cura. Me dá a morfina e o placebo de tua voz. Me cura.


Miss descartável,você é insubstituível, é comida e bebida pra mim. O homem-homem está com medo. A miopia de lágrimas embaça a super-visão. Identidade secreta revelada: super-mortal.

Mr intocável hoje precisa do seu abraço pra se hospedar. Hoje que essa alegria insuportável é vendida lá fora, que a paz e a família estão empacotados pra presente, Mr segurança precisa de você, do seu colo de mãe, do teu abraço de natal, antes que esse ano novo me aperte os pulsos, e desabe sobre mim.


Mr segurança precisa de você.

Mr segurança precisa de você.



São Luís, 24.12.08

03:13














quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O fantástico realismo da fantasia (ou CRÔNICA DE UM INCÊNDIO NO UNIVERSO PARALELO)




I


A esfinge ao contrário


Ali estava aquele homem prostrado diante daquela tela, olhando para ela como quem esperava um entorpecente, uma morfina para calar alguma dor de algum vazio que ele carregava. Ela era uma espécie de bar woman de versos, Ele bebera do seu on the rocks de letras e gostava da sensação da embriaguêz.Ele sempre voltava para bebê-la, fatiada em linhas. Ela costumava se despedaçar e despir-se escandalosa e generosamente para quem quer que quisesse lê-la. De suas letras brotavam, seda, lama, sofisticação, venenos doces, antídotos, pin-ups santíssimas, freiras obscenas e luxúria, muita luxúria. Ela tinha lascívia por viver.

Ela era uma alma caridosa, dava a todos que tivessem fome com o saciar-se da sua visão de boneca-de-louça, seus olhos transbordantes de doçura, sonhos e sexo desmedido. Ela era uma esfinge ao contrário, sempre a dizer: “devora-me ou decifro-te”. Ele,esperava sua súbita aparição branca, trazendo notícias do seu universo paralelo.


Ela havia lhe confessado que o panaca por quem ela se encharcava, depois de inundá-la, arranhando suas costas em uma parede de um banheiro e, cujo momento ela esperou como uma noiva pura e tonta, lhe confessou que não sabia o que sentia, logo naquele dia, depois que ela escolheu o altar de um banheiro para a cerimônia de consumação de serem uma só carne, um só corpo, e se deu para ele em cerimônia pagã e santa.


Por que ele não penetrou nela a noite inteira, esfregando as suas costas também em tetos, chãos, camas, lençóis? Por que não rasgou as suas costas com os dentes enquanto a possuía com a fome de um tigre? Como conseguiu ter tão pouca fome assim diante daquele banquete de iguarias?


II

Birdcage


Ele havia colocado muitas iscas espalhadas na gaiola multicor. Sabia que ela era um pássaro rebelde. Encheu-o de músicas, cheiros, quadros raros e buquês de letras, suas flores prediletas. Sabia que ela tinha uma fome voluptuosa de tudo que fosse liberdade e que logo apareceria.Suspeitava que seus quadris escondiam asas.



III

INCÊNDIOS, ENCHARCAMENTOS E BEBIDAS QUENTES

Poderia-se dizer-se que tudo nela era vermelho. Ela era um inferno de delícias, ela era um incêndio que caminhava. Ela veio com todas as suas fogueiras, suas promessas de banquete de carne branca e tenra. Ela era um jardim vivo de flores do campo rubras e pecaminosas. Mas, era sua boca carmim que mais o hipnotizava, ela era claramente inflamável, de fácil combustão. Invadi-la deveria ser como engatilhar implosões químicas, maremotos de sabor salgado, encharcamentos de seda vermelha e ilhas róseas, se exibindo como penínsulas narcisistas. Possuí-la talvez fosse pisar em campos de morango com visões de céus psicodélicos de diamantes incandescentes e indecentes. Era ouvir canções que se canta quando a alma flutua ou quer alívio. Seria fartar-se de um sarau onde ele seguraria pelas jarras de suas ancas e beberia algum vinho desconhecido de mortais covardes, de bebidas quentes. Ele a beberia a goladas, queimaria sua garganta como um bárbaro faminto e sedento.


IV
O BOTE
Ele fechou os olhos e a viu cuspindo poemas numa folha em branco com a boca ávida por letras e línguas. Entrou, nada falou, lhe disse sem cerimônia:
- Abra suas folhas baby, suas pernas. Hoje eu quero ler esse puro e pornográfico livro do teu ser. Escrever minha boca em cada canto do teu corpo, riscar com meus dentes em tuas costas letras garrafais dizendo : EIS AQUI UMA MULHER DESEJADA!

E sonhou que rasgariam cartilhas de comportamentos, sedas negras, qualquer fio de escarlate que se vestisse, e consumiriam-se no fogo-fátuo e vermelho de tudo. Quebrariam dogmas, tabus, regras, garrafas de vinho, champagnes e martinis.

V

O HOMEM QUE AMOU UM INCÊNDIO

Agora ele só pensava em incêndios.Ali estava ele olhando aquela tela mais uma vez. Ela apareceu, e, depois de um longo silêncio cúmplice, lhe disse que tinha medo, mas, com ele, ela queria que chovesse. Deixou-o imaginar que talvez banhassem na chuva.

De longe a cena era original, estranha e bela. Era um homem abraçado a um incêndio debaixo da chuva torrencial.





São Luís,23 de novembro

00:56




sexta-feira, 10 de outubro de 2008

IN VINO VERITAS


Ponha a culpa no vinho, no whisky, na carência, nos hormônios, mas venha. Eu finjo que acredito que você estava bêbada. Eu facilito as coisas pra você. De manhã, quando você estiver pegando suas roupas pelo quarto, cuidadosa e silenciosamente, vou simular que durmo profundamente.Me ligue no final da noite pedindo desculpas, eu vou dizer que essas coisas acontecem e que já mandei lavar o chão e a camisa que você não vomitou. Eu e você seremos cúmplices da hipocrisia de um amor covarde e dilacerante que não soube carregar o coliseu de nossos dias. Quando você bater a porta eu prometo não te deixar me ver cortar os pulsos, e só parar de sangrar quando eu te ver de novo. Eu vou voltar a beber.Um bloody Mary pra nós dois, por favor.

Faça de conta que nada aconteceu e mande uma mensagem dizendo que deixou a chave debaixo do tapete. Durma nua. Quando eu chegar, também faço de conta que é verdade e passarei a noite abraçado com você. Dormiremos na concha de nós dois e nos abraçaremos em desespero, pressionando o teu corpo contra o meu, até que a madre-pérola de amar renasça e estanque todo o sangue do edredon branco e vazio com cheiro de futuro morto. Se não der certo, eu bato a porta ao sair e no dia seguinte finjo que nada aconteceu.

Fure um pneu e diga que chove forte, que odeia me incomodar, mas, ligou pra todo mundo e ninguém atendeu, ninguém podia. Pergunte se eu poderia te ajudar. Depois, incendiaremos o carro debaixo da chuva fria e morreremos consumados pelo calor do passado, que morreu atropelado e deixou dois corpos no asfalto de uma estrada vazia pra lugar nenhum.

Lembre que esqueceu alguma coisa naquela caixa e que precisa pra amanhã. Temos mesmo uma conta pra pagar que venceu faz tempo. Temos que pegar um comprovante pra nos tirar daquela lista que por injustiça fomos parar, de algum credor de humor negro. Temos um livro pra entregar naquela biblioteca.Você nunca soube mesmo ler esse livro estranho que eu sou.

Acredite que foi só um pesadelo e acorde do meu lado dizendo que teve um sonho horrível. Eu vou dizer que passou e que eu estou aqui. Vou te dizer mentiras doces e te proteger da insuportável verdade que não dorme, com meu corpo quente. Eu tenho a sabedoria e a dor de mil infernos pra te aquecer.

Planeje alguma coincidência. Improvise um perdão em alguma noite de sábado. Quando me encontrar subitamente, me abrace e chore e diga que não vive sem mim. Diga que aceita até ser minha amante e que não se importa com nada, desde que você me tenha de qualquer jeito. Eu fingirei que sou o vencedor. Cínico, eu vou ocultar a verdade de todos, para que não vejam que o desespero pode ser um dândi, um narciso desejado, frágil e fácil de quebrar como um espelho.

Finja que nunca me conheceu e me encare no meio da pista. Dance comigo como se tivéssemos 18 anos. Depois fique comigo, transe no primeiro encontro.Esqueça sua nobreza e se insinue pra mim, me seduza, acabe com minha família, me dê o golpe da barriga, fique grávida de mim.Mas venha, por favor venha.

Por favor.


São Luís, 12.10.08







segunda-feira, 22 de setembro de 2008

WILD HORSES


Ele queria estar só, por um minuto que fosse. Abriu a janela como um presidiário que agride a parede para que uma réstia de sol entre e a lembrança dela pudesse ser expulsa , que fosse cegada, que fosse queimada. Queria talvez que um súbito vento a tragasse e lhe tirasse daquela sala onde seu fantasma arrastava correntes, brincos, argolas, piercings e uma saudade que o apunhalava com lâmina fria, e outros metais difíceis de derrreter.Queria encontrar algum bálsamo divino que apagasse as suas garras de aço do seu peito onde ela escreveu com suas unhas negras, declarações de amor em seu estranho alfabeto de sons, quando ele a possuía com a urgência dos que buscam a liberdade a caminho dos bosques, em disparada, como se montasse em um cavalo selvagem de longa crina loira, indomável e louco.

Escancarou as janelas. Como não conseguiu expulsá-la, ele se dirigiu ao banheiro. Abriu a torneira colocando a própria cabeça no jato de água, como um bêbado desejando curar-se de um porre homérico. Ele estava bêbado havia quase um ano. Ele estava bêbado dela. Um dependente da química de sua língua na dele, do vinho doce de sua voz, do tinto de sua boca na dele.
Naquele dia ele estava na sarjeta. Devia haver alguma forma de tirá-la da cabeça por um segundo. Não era possível que se quisesse alguém tanto assim.Não era possível que alguém ocupasse assim todos os quartos, salas, varandas, quintais da alma do outro. Deveria haver ainda, alguma parte de si mesmo em algum lugar dentro dele, algum porão, algum sótão, alguma passagem secreta que o conduzisse a si mesmo. Algumas raras vezes, ele se encontrava no quarto das visitas. Era isso: ele visita-se. Havia se tornado um visitante de si mesmo, em esporádicas situações onde sua inquilina permitia.

Olhou para o telefone que nunca tocava, odiou-o, e para salvar-se de uma esperança assassina, desligou-o. Finalmente pôde respirar.Olhou para os Cds espalhados pelo chão. apertou o play e a moça da voz melancólica dizia que estava cansada de brincar, que estava cansada de jogos.Ele também.Puxou o Cd rapidamente e jogou no meio da pilha, junto com os outros.Hoje ele não ia ficar mexendo na ferida.

Afrouxou as cordas da gravata e gritou seu nome de bruxa aos quatro ventos. Uma súbita calma de quem vomita lhe invadiu.

Encostou-se na parede e, escorregou as costas, até que se sentasse.Carregar o mundo sobre os ombros lhe cansava as pernas finas. Ergueu a barra da calça jeans e ao levantar a cabeça para o alto, reconheceu suas eternas companheiras de dor e de riso, suas testemunhas etéreas nas madrugadas: as nuvens rosa-chumbo.Elas sempre tinham o poder de filtrar os mais asfixiantes venenos, fazendo-lhe ver o que a sua hemorragia tinha de belo. Sua visão lembrou-lhe o período astral em que vinham vivendo até ali, entre uma temporada no inferno e outra, e como elas testemunharam sua surpresa. Ele que não esperava dela mais do que algumas luas novas, que fatalmente terminassem em quartos minguantes e não aqueles quartos crescentes em que vinham se deitando, de marés internas revoltas, quando eles, feito lunáticos se embrenhavam à procura de bosques particulares no meio da selva de pedra, com fomes de matilhas um pelo outro, governados por uma lua cheia e transbordante em que agora moravam e os governava hipnoticamente. Eles eram os dois corcéis rebeldes e loucos dentro da selva de pedra.

Suas confidentes começaram a partir, trazendo a princípio, um ouro desmaiado vazando e rasgando o vestido da madrugada,antes rosa e agora azul-chumbo, até deitar-se pelo firmamento, rasgando completamente o vestido e exibindo a nudez arrogante, opulenta e incontrolável do dia a lhe cegar. Saiu às pressas da varanda como um Drácula amedrontado. As manhãs sempre foram o seu vampiro, lhe sugando o silêncio com seus barulhos insuportáveis, lhe sugando a discrição com seu canhão de luz, apontando-o no meio da multidão como um ser estranho, explicitando sua tristeza, seu medo, sua fraqueza, agredindo seu conforto e roubando-lhe a ternura da penumbra.Mas se ele tinha a mão dela na sua, os dias eram noites cálidas. O toque de sua mão na dele, era um eclipse invencível e sereno indiferente à grosseria da manhã. Ela tinha esse dom do eclipse.

Entrou debaixo do edredon e improvisou uma noite. Iria dormir o dia todo. Era domingo mesmo, não trabalharia. De qualquer forma, sabia que em algum momento daquele dia, do outro dia, daquela semana talvez, ela apareceria com alguma razão justa para a distância, alguma desculpa perfeita, alguma confissão de raiva de algo que ele fizera, de medo ou insegurança de lhe perder, de alguma coisa que ele tinha dito ou não, de alguma atitude que esperava dele e não tivera. Era sempre assim.

Mas algo aconteceu naquela madrugada. Ele teve certeza. Não era possível querer alguém daquele jeito. Era um preço muito alto. Era caro demais.

Alguma coisa tinha que mudar.

Não era possível querer alguém assim.



Nivandro Costa Vale
São Luís,08.03.08
03:35am