
Sentado aqui nessa lápide que um dia chamamos de cama, ouvindo a marcha fúnébre que um dia chamamos de nossa canção, me pego olhando essas fotos espalhados pela parede , pelo chão, pela retina. Na boca, não mais o gosto do vinho na tua língua ávida de meus fluidos, de todos os meus selênios e leites, só o gosto do pró-seco do vácuo me travando a garganta, da solidão violenta e cega,testemunha ocular desse nosso amor, agora, pontual, dolente, tão confortável e doméstico.
Depois de tomada a enésima dose de perdão, a enésima promessa de mudança, back to black baby! Constato sobriamente que estamos à deriva no oceano de secura que virou nossa história. Já não creio que deus, nem a poesia, nem o vinho e o antídoto que moram nas letras, vão nos curar, nos resgatar. Nem os semi-deuses da música com todos os seus pecados e santidades, vão nos dar a volúpia da paixão, com toda sua fúria e violência doce de volta.Nem Beth Gibbons e sua música triste e quente nos devolverá o transe da química das bocas transbordando de sede um do outro, derramados no quarto à meia luz,escondidos no fumê do carro nas madrugadas.Nem Jeff Buckley, com seu lilac wine nos embriagará e salvará nossas almas. Nas taças que antes quebrávamos rolando pelo chão de qualquer espaço que nos abrigasse, quando as palavras viravam mero acessório dispensável, agora só bebemos a cicuta da solidão a dois. A junkie depressiva e talentosa já havia profetizado, enquanto nós trepávamos: love is a losing game.
E eu me pego perguntando:
Que horas o nosso relógio parou de bater?
Quando foi que nosso amor foi assaltado? Em que vala jogaram sua identidade?
Quem de nós enfiou o punhal? Quando o fizemos, agimos com dignidade? (e há dignidade em matar o amor?) ou fomos covardes e o atacamos enquanto ele dormia, enquanto estava de costas?
Quando é que nosso amor foi atropelado naquela estrada escura? Qual de nós acelerou? Por que não prestamos socorro quando ele agonizava no chão? Ele não teria sido salvo se tivéssemos prestado os primeiros socorros à tempo, se tivéssemos feito respiração boca a boca, se tivéssemos feito pressão em seu peito? Fomos omissos?
Quando lançamos a seta negra e letal que atravessou e vazou o nosso cúpido? Quem de nós atirou a primeira pedra quando o colocamos na parede e o apedrejamos?
Quem de nós o envenenou em doses homeopáticas com silêncio, ciúme e jogos?
Por que nada fizemos quando jogávamos a poeira debaixo do tapete, até se transformar nesse Saara que é o nosso quarto?
E depois que o nosso amor morrer,quando formos para o funeral, quem de nós chorará primeiro? Seremos viúvos inconsoláveis ou seremos viúvos alegres? Vestiremos um luto profundo pelo resto de nossas vidas, sentindo uma incurável dor da perda que doerá mais em certas ocasiões ou respiraremos aliviados pela partida do parente que agonizava no hospital?
O que escreveremos em sua lápide branca? Que epitáfio em vermelho vivo?
Um poema ou uma oração ao amor morto? o que cantaremos? Uma missa santa ou um requíem para dois canalhas, dois covardes?
E depois? Como olharemos suas fotos? Como veremos suas roupas no guarda roupa, sua gavetas?
O que sentiremos quando sentirmos seu cheiro impregnado nelas?
O que sentiremos quando lermos as cartas que fizemos por ele? E o que sentiremos quando vermos os inúmeros presentes empilhados,espalhados pelos cômodos da casa, cada um deles contando pedaços da história vivida, entre lágrimas, abraços, beijos, suores, respirações entrecortadas, promessas de eternidade perdido na órbita dos olhos um do outro, doces mentiras e risos, muitos risos.Onde os enterramos? Onde escondemos os nossos incontroláveis, incabíveis, inevitáveis e cúmplices risos? Lembra de quando ridicularizávamos dos outros com eles? Quando desmedidamente desdenhávamos dos que diziam que não,dos que diziam que nosso amor era impossível, que era um erro fatal, uma fantasia de dois egoístas, traiçoeiros, irresponsáveis, inconsequentes e frios? o que aconteceu com eles?
O que farão nossos olhos? secarão de dor latente ou brilharão com a esperança da perspectiva de um novo começo?
O que faremos com o que sobrar dele? Queimaremos para que não haja nenhuma lembrança que dificulte a cicatrização da gangrena ou altruísticamente distribuiremos seus pertences entre os necessitados?
O que sentiremos quando olharmos um vagabundo bêbado esmolando pelas ruas com a roupa que foi dele?
Eu hoje vou dormir no quarto em que nosso amor se deitava, vou me vestir com a roupa que ele dormia, vou usar sua aliança, abraçado ao travesseiro que ele pousava a cabeça e em uma noite chorava e em outras sonhava com uma mão agarrada em minha mão e outra na sua.
Amanhã decido se incendeio essa casa ou se dou uma festa. Pense também. E depois me mande sua decisão por sinal de fumaça, uma carta bomba, um e-mail.
Eu vou rezar para que uma maldita esperança não insistir em nascer em mim e não sonhar que você só está me matando em você por me amar demais.
Farewell.
São Luís, 01 de agosto, desse ano que se arrasta.
Aqui nesse hotel vagabundo.




